sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Seu Coelho


Gostaria de apresentar alguém que na verdade não conheci. Só sei por ouvir dizer. Nem mesmo sei o nome de quem vou apresentar; o que cria de cara um embaraço: constrangimento no encontro, ou quase encontro. Por isso conto com sua ajuda para junto imaginarmos esse alguém que quero apresentar. Comecemos pelo começo; o nome. Esse começo não é muito fácil para mim, pois não sei o nome d’Ele.... mas, sei seu o sobrenome: Coelho. Então chamemos Ele de Coelho, como se estivéssemos fazendo referência a vida da caserna: sargento Coelho se apresentando! Embora não saiba o nome de Seu Coelho, sei a importância que o nome tinha na sua vida. Seu Coelho, ainda quando era um Coelhinho com 12 anos de idade, sonhava ter uma filha. No auge do seu sonho, não conseguia imaginar o rosto de sua futura filha. Mesmo assim, já tinha um nome pronto para batizá-la quando nascesse: Ana Paula. Então, trinta e dois anos depois, quando Seu Coelho tinha 44 anos de idade, seu sonho foi realizado: nascera sua primeira filha, que obviamente já tinha o nome escolhido: Ana Paula. Zeloso, Seu Coelho desde de cedo aprendera amar um nome... e nos lembra que primeiro veio o Verbo. Seu Coelho era um amante do Verbo; como castigo mandava os filhos lerem em voz alta o jornal inteirinho; acreditava que aquelas palavras redimiam o pecado, mesmo que fossem palavras sobre o governo Jango ou a “Revolução” de 64. Chicoteava com as palavras, com o Verbo. Quando os filhos passavam do limite, do alcance do jornal, Seu Coelho usava seu pior castigo: colocava-os em fila, e proferia sermões que duravam horas. Todos eram castigados pela palavra, seja escrita ou falada. Todos os filhos, menos Ana Paula, pois ela era o próprio Verbo: amor supremo de Seu Coelho.Acho que isso já ajuda a imaginar Seu Coelho; um homem que foi primeiro pai de um nome e só depois de uma filha... ou melhor dizendo, de um nome fez uma filha e de uma filha vez uma vida... e da vida roubou um sonho. Mas, se Seu Coelho roubou um sonho da vida, também assistiu a vida lhe roubar sonhos. Roubava-o nos dados, nas cartas e nos números. Seu Coelho acreditava na sorte, e fazia muito bem, pois quantos homens têm a sorte de realizar o sonho de um nome. Assim, quando tinha sorte Seu Coelho não levava as crianças para brincar no parque, mas trazia o parque para brincar com as crianças. Era uma Festa!!! Os amigos dos filhos de Seu Coelho nessas ocasiões destilavam de inveja palavrões e atribuíam possíveis defeitos ao brinquedo novo dos filhos de Seu Coelho. Mas, quando a sorte lhe era roubada , Seu Coelho com a dignidade de um jogador passava a mão no parque dos filhos e vendia: um investimento, para alimentar a esperança na chegada de um parque maior. Esse homem sem rosto e só com sobrenome tem um novo contorno, que diminuí a imprecisão da nossa imaginação: além de apaixonado por nomes, Seu Coelho era viciado em risco. Esse vício nos remete a outro ponto, uma bóia salva-vida para a imaginação, da vida de Seu Coelho: sua profissão. Seu Coelho trabalhava com ferro, e daí sua intemperança: aprendera que só o calor molda as coisas, as pessoas e a vida. Vida tem que ter calor, para vencer a uniformidade. A imagem do ferro aquecido, de negro transformado em amarelo, de amarelo transformado em forma... em arte... em vida. Até o ferro é roubado, para depois roubar a forma da vida. Seu Coelho aprendera com o ferro a ter a sorte roubada pela vida, e a vida a tentar roubar o destino. Seu Coelho era um homem de ferro. Depois de se aposentar, de não mais trabalhar com ferro, Seu Coelho cultivou um hábito curioso. Acordava cedo, como se fosse ao trabalho. Tomava banho, vestia o terno, calçava o sapato sempre engraxado, via as crianças irem para o colégio, beijava a esposa... depois de todo esse ritual, quando qualquer um de nós imaginamos que Seu Coelho de terno, gravata, sapato e perfume vai sair para a rua... Seu Coelho sentava no sofá, e passava o resto do dia lendo o jornal. Seu Coelho se arrumava para ler jornal e vencer o tempo. Por trás de um comportamento aparentemente estranho, de se arrumar para o jornal, estava Seu Coelho se arrumando para a vida... para a vida no passado. O Jornal, panteão do Verbo de Seu Coelho, fazia-o revisitar o passado, reviver as linhas do tempo e expurgar seus antigos pecados. Pai de um nome, crente da sorte, amante do fogo da vida e devoto do Verbo, esse é alguém que não conheci e mesmo assim ousou apresentar. Que possamos, pelo menos de forma educada, dizer: muito prazer Seu Coelho, como vai! Seu Coelho estava certo, o Verbo castiga e também cria a vida. Seu Coelho, que ironia, amante do nome, por mim ficou conhecido pelo sobrenome. Seu Coelho, muito prazer, me chamo...

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