quarta-feira, 15 de outubro de 2008

De Volta à Tabacaria



Primeiro domingo do mês, véspera da pior segunda-feira; aquela que começo trabalhando para ganhar um salário que vive me dando trabalho. Assisto nessas segundas-feiras meus sonhos “classe média” ruírem diante da força de meus dramas “classe média”. Enfim, no primeiro domingo do mês já estou concentrado para pagar conta, enfrentar fila e fazer novos planos para daqui alguns anos. Se existe um inferno para a “classe média” é essa primeira segunda-feira do mês, e sua Sala de Estar é o domingo. Nesse domingo em especial, que faço do controle remoto um antídoto para a traumática segunda-feira, minha mulher com uma pergunta explodiu minha devoção aos “domingos” e as “feiras”: “... como é mesmo aquele verso da Tabacaria?”. Pelejando com a memória busquei entre meus livros acadêmicos, um livro que tinha comprado ainda nos meus primeiros dias de faculdade. Onde estaria Fernando Pessoa? Nas estantes principais do escritório não estava, esse era lugar cativo para livros grossos e chatos; mas, que lia com constância e com constância tirava a poeira. Procurei no armário, entre os livros expurgados da estante, uma espécie de purgatório de meus livros; não estava. Procurei em cima do armário, um verdadeiro inferno, pois o pior castigo para um livro é não ser lido... Lá, no inferno dos meus livros encontrei Pessoa agonizando. Peguei-o. Tirei a poeira e abri o pesado volume, pois estava procurando “aquele verso da Tabacaria”. Na primeira página encontrei meu nome, escrito com caneta Bic azul, uma letra infantil que queria oferecer a esse vocativo uma aura de sobriedade e propriedade. Mas, foi a segunda página que me fez encontrar a Pessoa. Era uma página menos sofrida com o tempo. No alto da grife do livro: Fernando Pessoa. Em baixo o caráter irredutível do trabalho: Obra Poética Volume Único. Lembrei que esse livro tinha me custado caro, que tinha levado durante meses boa parte de minha bolsa de estudo. Curiosa a época que gastava meu rendimento mensal com Poesia – hoje não sou capaz de fazê-lo.
Mas, nessa página, tinha garranchos compondo de Bic azul toscos numerais. O número escrito era 226-7654. Ler esse número foi fugir de minha Pessoa e desaguar em outra Pessoa. Quanto tempo não lia ou escrevia esse número de telefone, mesmo assim nunca o havia esquecido. Nem mesmo nas minhas piores segundas-feiras. Era o número do telefone da casa de minha avó, onde nunca fui pai – apenas neto. Simplesmente neto, num mundo sem dias da semana. 226-7654, a matemática vence o tempo e traduz em sete traços a Pessoa que sempre fui, mas, que também já não sou: “Que sei eu do que sou, eu que não sei o que sou”. Estou de volta à Tabacaria.

Um comentário:

Encontros e Desencontros disse...

Adoro Fernando Pessoa também...
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos
meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me
contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me
disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham
razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa
e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado
diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam
passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas
cada um via uma coisa deferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.

(Fernando Pessoa - O livro do desassossego)