quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Mar, Sol, Lua e Nostalgia
Nina, a Praia de Iracema pode até ter arranha-céus, turistas do mundo inteiro circulando na rua Tabajaras, semáforos e lojas de convivências, lan house, restaurante francês, vôlei de praia transmitido pelo Esporte Espetacular, apartamentos tomados por euros, moradores antigos do bairro expulsos por euros... apesar de todos as transformações que nos assolam, ainda temos abrigo: o Mar, o Sol e a Lua. Ter crescido na PI nos ensina a olhar o Mar e de cara entender sua oferta; na maré seca é bom andarmos sobre os corais expostos, procurarmos peixinhos coloridos ilhados em micro-piscinas salgadas – as vezes tem até polvo. Maré cheia é para pegar a prancha, ou a famosa “tábua” que é uma prancha de madeira, e surfar; observar as ondas, perceber para que direção elas podem nos conduzir (esquerda e direita) e se elas podem nos brindar com um “tubo” – é o “tubo” o portal para uma dimensão de vida plena, e molhada. Caso o Mar esteja verde é hora de mergulhar, visitar suas entranhas. Água barrenta é tempo de Mar mexido, é tempo de Vento, que traz nas suas costas a sabedoria do mundo inteiro, pois no mundo inteiro circula o Vento: silêncio! é preciso ouvir os segredos balbuciados por ele. Fim de tarde é hora de presenciar a morte do Sol, que se esconde nas águas salgadas: é hora de irmos para a Ponte Metálica, termos nossos cabelos endurecidos pela maresia, os ouvidos emprenhados pelo mantra das ondas e os olhos desesperados diante da beleza e da tristeza do adormecer do Sol. Na noite de Lua Cheia basta virarmos o rosto, e com paciência podemos assistir a Lua nascer por trás do paredão de pedra. Em outras noites a Lua é só um sorriso discreto, perdida entre estrelas e esperanças. Nina, filha, na Praia de Iracema o Mar, o Sol e a Lua nos ensina que mudar com as mudanças é a melhor forma de não nos perdemos embrenhados na floresta da nostalgia, e que as lembranças são migalhas de pão que marcam o caminho que nos conduz a nós mesmos...
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Bodega
Nina, bodega é uma palavra que nem todo mundo conhece. Significa um lugar que vende de tudo: farinha, feijão, óleo, arroz, linha, agulha, elástico, bila (bola de gude), arraia (pipa), pão, prego enrolado no papel grosso – daí a antiga expressão mais grosso do que papel de enrolar prego – leite em saco, cachaça, conhaque, cerveja, ficha de telefone, kichute ainda no plástico, sandália havaiana, tijolinho (doce), martinho da vila (doce), cocada, chocolate batom... além dessa variedade de produtos a bodega tem uma decoração interna típica: paredes de azulejos com desenhos florais, mesa de bilhar, um armário de madeira com porta de vidro onde parte dos produtos são guardados, lata de manteiga ao lado do armário, prateleiras com garrafas de bebidas empoeiradas (um toque de requinte), do teto pendente mortadelas que parecem ter validade infinita, mas, a parte principal de uma bodega é o balcão de pedra, que tem como acessório um grupo de cachaceiros discutindo os problemas do Brasil, brigando pelo tamanho da dose de cachaça e pedindo fiado. Tudo bem!, é uma definição que talvez não se aplique as bodegas de hoje – se é que hoje ainda tem bodega – mas, é a definição da bodega que marcou minha vida, a bodega do Alvino. Ficava na esquina da rua Ararius com a rua Dragão do Mar, e ajudou a dar um sentido definitivo para definição de bodega. Seu proprietário era O bodegueiro. Baixinho, barrigudo, trabalhava sempre sem camisa, com uma bermuda apertada por um cinto com a inicial de seu nome e calçando chinelo de dedo. O cabelo impecável, apesar de anunciar o alongamento da testa. Sempre suando, nosso bodegueiro era homem de poucas palavras, simplesmente esperava o pedido do freguês e jogava o dinheiro ou pegava o troco numa gaveta de madeira suja e torta. A noite, para completar a decoração do estabelecimento, guardava seu Corcel I marrom junto a mesa de sinuca e subia para o segundo andar, onde morava com sua esposa e seus dois filhos. Não consigo imaginá-lo fora desse ambiente. A família era crente, a filha dele andava pouco pelo bairro, e falava menos ainda. Sempre achei a família do Alvino meio doente, carregavam o vírus da tristeza... ou seria apenas timidez. Achávamos que era o pobre mais rico do mundo; ele vivia quase como um monge, sem luxo nenhum. Entretanto ganhava muito dinheiro, todo dia uma procissão de compradores passava pelo balcão, principalmente próximo as horas do almoço ou do jantar. Tentaram até roubar sua casa, o que foi impedido pelas grades da janela. Como o Alvino quase não falava achava que ele não reconhecia ninguém. Um dia um milagre aconteceu; meu irmão, já adolescente foi comprar pão na bodega, e o Alvino inusitadamente falou: “lembro quando tua era criança, teu avô te sentava nesse balcão e comprava Grapette com broa”. Meu irmão ficou sem palavras, não é que o Alvino depois de anos havia dirigido a palavra para um de nós... e o melhor, com detalhes. Fiquei imaginando que ele não sabia o nome dos clientes, mas o que comprava, e assim meu irmão era o broa com Grapette e eu o meio pão sovado, a Pádua (lavadeira) era a barra de sabão Pavão... Quando morreu fiquei com o coração apertado, não por ele, mas pela esposa e pelos filhos – achei que eles ficariam mais tristes do que já eram. A esposa tentou tocar o negócio, mas deve ter cansado dos bêbados... até que mudaram do bairro, e levaram na mudança mais um pedaço da minha infantil PI... e eu nem percebi o quanto de mim fugiu na mala do Corcel I marrom. Nina, te apresento a bodega, bodega essa aqui é a Nina...
sábado, 11 de setembro de 2010
Nunca mais fui um bom jogador de Futebol
Nina, minha chegada na PI foi marcada por um imenso sentimento de tristeza. Antes de mudarmos em definitivo para nosso apartamento, ficamos abrigados na casa do tio Mundim (Mundim, Mudinho, Raimundinho até o original Raimundo), irmão de meu avô. Foram dias maravilhosos: primeiro a novidade, dividirmos uma casa com outras pessoas era por si só um evento; depois a tia Helena, esposa do tio Mundim, cozinhava divinamente e tudo acabava delicioso; outro ponto a favor de nossa temporada como hóspede era o quintal da casa, com criação de galinha e de peba (espécie de tatu) que acabavam invariavelmente cozidos pelas mãos hábeis de tia Helena. No entanto, o que mais me empolgava era o futebol. Nunca entendi o que houve, era quase um milagre, mas não sei por que desígnio divino eu passei a jogar bem. Nas famosas brincadeiras de travinha eu fazia muitos gols, e logo meus colegas de Cidade 2000 – bairro onde o tio Mundim morava – passaram a me dar um destaque que nunca tive. Iam na casa do meu tio me chamar para o racha, sempre me escolhiam primeiro para compor o time... e olha eu nem era o dono da bola. Sentiam-me como um craque, muitas vezes fazia charme e impunha alguns pequenos desejos: só jogava no time sem camisa, por exemplo. Até que chegou o dia do torneio aberto de Futebol de Salão da Cidade 2000. O filho da Zenaide, que era amiga de longas datas de minha mãe e vizinha do Tio Mundim, me fez o convite para jogar no time dele. Nem acreditava, não fiz o menor esforço e fui convocado para um time que tinha até uniforme – era a camisa do Fluminense. Os jogos aconteciam na quadra descoberta do grupo escolar, e em dias de jogos rezávamos para não chover – que é uma heresia no Ceará. A cada jogo os meninos iam me buscar em casa, meu avô olhava com desconfiança para meu recente adquirido talento futebolístico, mas deixava ir. Ganhamos todas as partidas, eu fiz alguns gols, e a molecada dos outros times me chamavam pelo nome... repito Nina, não sei o que houve, e mesmo descontando o exagero do meu lembrar, nosso time ia avançando, dia após dia. Na tabela dos artilheiros estava empatado com outro garoto. Fomos para final do campeonato, e no outro lado o time do meu rival de artilharia – previa uma batalha. O fatídico confronto seria no último sábado do mês, e na semana que antecedia o jogo meu coração na cabia no peito... Ficava imaginando o que faria, as jogada possíveis de meu rival e minha comemoração com a camisa do Flu – seriamos campeões? Estava ansioso e feliz, até descobrir que me mudaria para a PI nas vésperas da final. Não acreditei, na condição de estrela do time (que eu mesmo havia auto-empossado) pedi aos meus companheiros que fossem apelar para meu avô, pedir que ficasse na 2000 até a peleja final. Todos os apelos foram em vão, e perdi a partida de minha vida. Cheguei na PI com o coração sofrido, pensando em pegar um ônibus ou apelar para que meu avô me levasse no seu valoroso Jipe Willians até a Cidade 2000 - em vão. Daí em diante, voltei a ser um mortal e meu futebol sumiu em definitivo repousando nas raias da mediocridade. Aliás, nunca soube o resultado do confronto, só fui voltar a pisar na 2000 depois de adulto, e meu tio já não morava mais lá – tinha mudado para o céu.
É difícil
Nina, com a convivência fui apresentado mais informalmente a Praia de Iracema, e descobri que na intimidade era conhecida por PI. Outras coisas me chamaram atenção, uma delas era o fato da estátua da Iracema ficar na Volta da Jurema, e de não existir nenhuma imagem da “virgem com lábios de mel” em território PI-ense. Outro fato intrigante era os nomes da rua, fazendo referências indígenas: Tabajaras, Tremembés, Aquidabam, Ararius... Ao mesmo tempo tínhamos a homenagem a um dos nomes da luta contra a escravidão negra, o jangadeiro Dragão do Mar, que cruzava a avenida que lembrava a mais conhecida oligarquia no Ceará – Av. Nogueira Acioli. Entre índios, abolicionistas e oligarquistas vivíamos na PI. Tínhamos outras “glórias”: o mais antigo hotel de Fortaleza, que poderia ganhar facilmente os prêmios de prédio mais decadente e de arquitetura mais estranha, sem falar de seus elevadores que sempre enguiçavam, suas escadas escuras, seus moradores inusitados, um cassino. Tinha também o famoso Ferro de Gomar, um edifício que realmente parecia um ferro de passar roupa, construído numa bifurcação na Av. Aquidabam. A casa do Chiquinho, na esquina da Dragão do Mar com a Ararius, era um caso a parte; era feita de taipa, com telhado de madeira e chaminé, não tinha luz elétrica e seus moradores por vezes tomavam banho de lata na calçada. Ao lado da casa extemporânea do Chiquinho tinha o ponto comercial mais amaldiçoada do universo, foi bar, foi restaurante, foi antiquário, foi bar de novo, ficou fechado um tempo, foi reformado, virou bar cabeça, fechou de novo, foi academia... nada durava naquele espaço enfeitiçado. Da varanda de casa, via o símbolo de minha cobiça: um prédio muito alto, com elevador, sacadas para o Mar e dizem as más línguas com uma piscina em cada apartamento – Nina aquilo era um sonho. Até que um dia uma das sacadas desse prédio simplesmente despencou sobre a sacada do apartamento debaixo; fiquei com medo da força de minha cobiça. Além disso, ainda a PI tinha a Igreja São Pedro, toda azul e branco, o mercantil São José, o posto de gasolina com o borracheiro ranzinza que era a cara do Émerson Fittipaldi, o Lido era um restaurante na beira da praia e que na ressaca da maré fechava por que era época do Mar almoçar no estabelecimento, tinha a casa do pai do Calísio ao lado do Lido, com suas paredes amarelas, com marcas da maresia e sua arquitetura doa anos de 1940 – depois de muito tempo descobri que a casa pertencia a companhia Ferroviária do Brasil - , tinha a bodega do Alvino, o bar do Pereba, tinha o Estoril um restaurante aberto durante a 2a Guerra, para atender os soldados americanos, quando conheci estava a construção estava desmoronando e transformada em ponto de criação de galos de briga e rinha, depois foi reformada e virou local de turistas, com coquetel de camarões e shows humorísticos... essas ruas e esses prédios guardam nos seus asfaltos, nos seus concretos, nos seus calçamentos, nas suas taipas... o pouso do meu olhar, que rapidamente aprendeu a reconhecer a PI dentro da Iracema.
O Jipe Willians
Quando ancorei pela primeira vez na Praia de Iracema, cheguei na polpa do Jipe Willians 51 verde; é o verde a cor da esperança! O passeio em si já era uma novidade, todos juntos, minha avó, meu irmão Keké, meu avô, eu e o Jipe. E assim chegamos. O carro parou na rua de calçamento, entre o terreno baldio que seria palco de proezas de meu irmão (depois eu conto essa história) e o edifício de três andares, com dois apartamentos por andar: Rua Ararius, 168, apt. 04, Praia de Iracema. Fortaleza-CE (tel: 226-7654). Nina, nunca esquecerei esse endereço, esse telefone... Cercando o nosso prédio ao norte um imenso campo de areia, com suas traves de madeira e seus times de adultos uniformizados, próximo a bodega do Alvino; ao sul mais uma rua de paralelepípedos, onde ficava o bar do Pereba (concorrente do Alvino), ao oeste o Colégio São Pedro e a leste o já mencionado terreno quase “selvagem”. O apartamento em si era grande, pelo menos para os padrões atuais dos “caixas de fósforos”: três quartos, um banheiro, uma sala, uma cozinha de azulejos azuis, área de serviço com dependências de empregada – parece anúncio de classificado. Caso fosse um anúncio de venda ou aluguel de imóvel eu diria mais: com vista para o Mar, mas é mentira, da varanda do nosso apartamento só avistávamos o Mar se fizéssemos malabarismos, e eu sempre torcia o pescoço para enxergar de longe suas águas. O motivo da visita era conhecermos nosso novo apartamento, em reforma, que logo abrigaria nossas vidas por mais de 20 anos. Mas, dessa primeira vez o que mais me lembro é do roubo, pois enquanto estávamos visitando o apartamento, andando nos cômodos e imaginando nossos destinos, nossa embarcação foi atacada: o indefeso Jipe teve seu tanque de gasolina aberto, e de lá, como numa transfusão, seu sangue “transferido” para uma bacia. Meu avô surpreendeu o larápio, e aos gritos de “pega ladrão” fui apresentado formalmente a Praia de Iracema. Um bairro com personalidade “bipolar”, oscilando entre o roubo e o presente. Roubou gasolina do Willans, mas me presenteou uma recepção animada, me apresentando um novo medo – o medo do novo. Novo bairro, nova casa, novos cheiros, novo Mar, novo futuro, novo ladrão...
Ofereço-te-me
O que pode um pai como eu, marinheiro de primeira viagem, ofertar para sua tão desejada e amada filha? A espera é um continente distante e enquanto navego rumo a ti, chegas mais perto do meu coração. Atravessar o oceano do tempo intimida até mesmo as mais robustas naus, atordoa os mais experientes navegadores e ameaça as mais belas esperanças. Mas, só me resta navegar. E enquanto navego preparo teu enxoval, pois sempre é mais um pretexto para pensar em ti, de andar por ti e de falar de ti. As vendedoras aproveitam a ocasião, e fingem que compartilham da minha doce espera. Entrei e saí de loja, fui montando meu botim: banheira, pagão, puxadores de armário, vestido laranja com brancas franjas, sapatinho lilás... mas, nada parecia ser digno da princesa de terras distantes, que trazia sobre suas costas uma nova vida e minha nova velha vida. Pensei no que poderia ser a altura de sua chegada, uma prenda que tivesse me custado mais que um cartão de crédito, uma oferta que tivesse me custado lágrimas, sangue e medo. Pensei, pensei e pensei e acho que só posso navegar rumo a tua chegada carregando nas mãos o perdido, te oferecendo que não existe mais... e se o tempo nos separa até teu chegar, ele nos une na vontade de nos encontrarmos: Nina, minha filha, te ofereço o LEMBRAR, em gotas de imaginação e na certeza de me ouvires. Enquanto te espero lembro do passado e do nosso futuro, enquanto te espero reinvento mundos e assim nos encontramos num espaço que já é só nosso. Enquanto lembro te amo mais, e ofereço minha velha nova vida. Oferecer-te o LEMBRAR é oferecer-te o tempo, é oferecer-te-me. E de tudo que posso e quero lembrar, de tudo que posso reinventar, ancoro no Mar seguro de minha infância, no porto do que me tornou o que sou: Nina te apresento o bairro onde cresci, no litoral da cidade de Fortaleza, e que ainda atende pelo nome de Praia de Iracema. Um bairro que também partiu para terra do não-existo-mais, mas que me ensinou a amar o LEMBRAR. Pega teu presente, ele é minha vida em palavras... e silêncios. A partir daqui, desse emaranhado de palavras e silêncios espero começarmos nossa cumplicidade, começarmos juntos nossa aventura de pai e de filha... começarmos a comungar nossas lembranças.
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