quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Cervejas e Pronomes


Beba-me em goles lentos
para que possa sentir-me fim
Beba-me em goles lentos
para “embriargar-se-me”
Beba-me em goles lentos
para fazer-me arrependimento
Beba-me em goles lentos
para solver-me
Beba-me em goles lentos...
Beba-me em si
Beba-me...

Jazz


o Baixo dedilha notas na ausência;
a Bateria ritma tantos corações;
o Piano revela a delicadeza em preto e banco;
a Guitarra grita o improviso;
a Voz é o sopro do Divino;

o Jazz revela a vida sem maldades...

domingo, 19 de outubro de 2008

Mar e Sertão


Vivemos entre o Mar e o Sertão. De Mar, de aMar, temos cardumes de medos nadando contra a correnteza. Para fisgar o melhor e maior peixe é preciso sorte, paciência e esperança. E quanto maior a fome, quanto mais bocas para alimentar, quanto mais sentimentos precisamos ... mais difícil pescá-los. Mas, outras vezes, na aridez do chão rachado, com uma rápida chuva de inesperados... reverdecemos. Somos Mar sem peixe e Sertão verde, somos a fartura de solidão e a vida disfarçada de ausência. Somos Mar e Somos Sertão... e se um dia o Mar virar Sertão... perfeição.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Seu Coelho


Gostaria de apresentar alguém que na verdade não conheci. Só sei por ouvir dizer. Nem mesmo sei o nome de quem vou apresentar; o que cria de cara um embaraço: constrangimento no encontro, ou quase encontro. Por isso conto com sua ajuda para junto imaginarmos esse alguém que quero apresentar. Comecemos pelo começo; o nome. Esse começo não é muito fácil para mim, pois não sei o nome d’Ele.... mas, sei seu o sobrenome: Coelho. Então chamemos Ele de Coelho, como se estivéssemos fazendo referência a vida da caserna: sargento Coelho se apresentando! Embora não saiba o nome de Seu Coelho, sei a importância que o nome tinha na sua vida. Seu Coelho, ainda quando era um Coelhinho com 12 anos de idade, sonhava ter uma filha. No auge do seu sonho, não conseguia imaginar o rosto de sua futura filha. Mesmo assim, já tinha um nome pronto para batizá-la quando nascesse: Ana Paula. Então, trinta e dois anos depois, quando Seu Coelho tinha 44 anos de idade, seu sonho foi realizado: nascera sua primeira filha, que obviamente já tinha o nome escolhido: Ana Paula. Zeloso, Seu Coelho desde de cedo aprendera amar um nome... e nos lembra que primeiro veio o Verbo. Seu Coelho era um amante do Verbo; como castigo mandava os filhos lerem em voz alta o jornal inteirinho; acreditava que aquelas palavras redimiam o pecado, mesmo que fossem palavras sobre o governo Jango ou a “Revolução” de 64. Chicoteava com as palavras, com o Verbo. Quando os filhos passavam do limite, do alcance do jornal, Seu Coelho usava seu pior castigo: colocava-os em fila, e proferia sermões que duravam horas. Todos eram castigados pela palavra, seja escrita ou falada. Todos os filhos, menos Ana Paula, pois ela era o próprio Verbo: amor supremo de Seu Coelho.Acho que isso já ajuda a imaginar Seu Coelho; um homem que foi primeiro pai de um nome e só depois de uma filha... ou melhor dizendo, de um nome fez uma filha e de uma filha vez uma vida... e da vida roubou um sonho. Mas, se Seu Coelho roubou um sonho da vida, também assistiu a vida lhe roubar sonhos. Roubava-o nos dados, nas cartas e nos números. Seu Coelho acreditava na sorte, e fazia muito bem, pois quantos homens têm a sorte de realizar o sonho de um nome. Assim, quando tinha sorte Seu Coelho não levava as crianças para brincar no parque, mas trazia o parque para brincar com as crianças. Era uma Festa!!! Os amigos dos filhos de Seu Coelho nessas ocasiões destilavam de inveja palavrões e atribuíam possíveis defeitos ao brinquedo novo dos filhos de Seu Coelho. Mas, quando a sorte lhe era roubada , Seu Coelho com a dignidade de um jogador passava a mão no parque dos filhos e vendia: um investimento, para alimentar a esperança na chegada de um parque maior. Esse homem sem rosto e só com sobrenome tem um novo contorno, que diminuí a imprecisão da nossa imaginação: além de apaixonado por nomes, Seu Coelho era viciado em risco. Esse vício nos remete a outro ponto, uma bóia salva-vida para a imaginação, da vida de Seu Coelho: sua profissão. Seu Coelho trabalhava com ferro, e daí sua intemperança: aprendera que só o calor molda as coisas, as pessoas e a vida. Vida tem que ter calor, para vencer a uniformidade. A imagem do ferro aquecido, de negro transformado em amarelo, de amarelo transformado em forma... em arte... em vida. Até o ferro é roubado, para depois roubar a forma da vida. Seu Coelho aprendera com o ferro a ter a sorte roubada pela vida, e a vida a tentar roubar o destino. Seu Coelho era um homem de ferro. Depois de se aposentar, de não mais trabalhar com ferro, Seu Coelho cultivou um hábito curioso. Acordava cedo, como se fosse ao trabalho. Tomava banho, vestia o terno, calçava o sapato sempre engraxado, via as crianças irem para o colégio, beijava a esposa... depois de todo esse ritual, quando qualquer um de nós imaginamos que Seu Coelho de terno, gravata, sapato e perfume vai sair para a rua... Seu Coelho sentava no sofá, e passava o resto do dia lendo o jornal. Seu Coelho se arrumava para ler jornal e vencer o tempo. Por trás de um comportamento aparentemente estranho, de se arrumar para o jornal, estava Seu Coelho se arrumando para a vida... para a vida no passado. O Jornal, panteão do Verbo de Seu Coelho, fazia-o revisitar o passado, reviver as linhas do tempo e expurgar seus antigos pecados. Pai de um nome, crente da sorte, amante do fogo da vida e devoto do Verbo, esse é alguém que não conheci e mesmo assim ousou apresentar. Que possamos, pelo menos de forma educada, dizer: muito prazer Seu Coelho, como vai! Seu Coelho estava certo, o Verbo castiga e também cria a vida. Seu Coelho, que ironia, amante do nome, por mim ficou conhecido pelo sobrenome. Seu Coelho, muito prazer, me chamo...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A Foto de Lucy


Um dia minha, vó, a senhora me disse: “meu filho, essa foto é para você mostrar para os outros como eu era bonita!”. Hoje olhando para ela sinto o tempo escorrendo entre os dedos de minha mão, sinto tempo recusando-se repousar. Sinto a ausência de um tempo que me protegia, que se estraçalhou em perda e saudade. Fotografia remédio para um tempo quase-perdido. Na foto seus olhos vó, seus olhos não encaram o fotógrafo – nem mesmo encaram o instante da fotografia –, parecem perdidos no tempo, parecem encarar o futuro e desprezar o presente em click. São olhos que procuram o que virá. São olhos que pajeiam meus medos, mesmo antes de poder senti-los... são olhos que protegem duas crianças (meu irmão e eu) matizadas em preto e branco. São olhos que afagam nosso destino. Reconheço-me no seu olhar vó, um olhar que anunciava meu vir-a-ser. Reconheço-me nas suas sobrancelhas, essas sobrancelhas são minhas também... trago-as até hoje. Seus lábios finos já guardam as palavras que um dia ouvi de ti: “acorde meu filho”, “já almoçou?”, “amanhã tem vestibular, descanse”, “você ta doente?”, “beba esse chá”... palavras que me salvaram a vida e que escorrem nas lágrimas da ausência. Essa fotografia salva-me do luto, da tristeza delicada e constante que carrego sempre, triste estou por não poder tirar mais fotografias suas, vó. Mesmo assim, essa foto não serve apenas para mostrar como a senhora é bonita: serve para combatermos o tempo, para embaralharmos passados, futuros e presentes. Serve para nos encontrarmos... Vó mesmo antes de nascer eu já me encontro em ti, nos teus sonhos e nas tuas rugas... Vó, nos encontramos... Vó, me faz cafuné...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

De Volta à Tabacaria



Primeiro domingo do mês, véspera da pior segunda-feira; aquela que começo trabalhando para ganhar um salário que vive me dando trabalho. Assisto nessas segundas-feiras meus sonhos “classe média” ruírem diante da força de meus dramas “classe média”. Enfim, no primeiro domingo do mês já estou concentrado para pagar conta, enfrentar fila e fazer novos planos para daqui alguns anos. Se existe um inferno para a “classe média” é essa primeira segunda-feira do mês, e sua Sala de Estar é o domingo. Nesse domingo em especial, que faço do controle remoto um antídoto para a traumática segunda-feira, minha mulher com uma pergunta explodiu minha devoção aos “domingos” e as “feiras”: “... como é mesmo aquele verso da Tabacaria?”. Pelejando com a memória busquei entre meus livros acadêmicos, um livro que tinha comprado ainda nos meus primeiros dias de faculdade. Onde estaria Fernando Pessoa? Nas estantes principais do escritório não estava, esse era lugar cativo para livros grossos e chatos; mas, que lia com constância e com constância tirava a poeira. Procurei no armário, entre os livros expurgados da estante, uma espécie de purgatório de meus livros; não estava. Procurei em cima do armário, um verdadeiro inferno, pois o pior castigo para um livro é não ser lido... Lá, no inferno dos meus livros encontrei Pessoa agonizando. Peguei-o. Tirei a poeira e abri o pesado volume, pois estava procurando “aquele verso da Tabacaria”. Na primeira página encontrei meu nome, escrito com caneta Bic azul, uma letra infantil que queria oferecer a esse vocativo uma aura de sobriedade e propriedade. Mas, foi a segunda página que me fez encontrar a Pessoa. Era uma página menos sofrida com o tempo. No alto da grife do livro: Fernando Pessoa. Em baixo o caráter irredutível do trabalho: Obra Poética Volume Único. Lembrei que esse livro tinha me custado caro, que tinha levado durante meses boa parte de minha bolsa de estudo. Curiosa a época que gastava meu rendimento mensal com Poesia – hoje não sou capaz de fazê-lo.
Mas, nessa página, tinha garranchos compondo de Bic azul toscos numerais. O número escrito era 226-7654. Ler esse número foi fugir de minha Pessoa e desaguar em outra Pessoa. Quanto tempo não lia ou escrevia esse número de telefone, mesmo assim nunca o havia esquecido. Nem mesmo nas minhas piores segundas-feiras. Era o número do telefone da casa de minha avó, onde nunca fui pai – apenas neto. Simplesmente neto, num mundo sem dias da semana. 226-7654, a matemática vence o tempo e traduz em sete traços a Pessoa que sempre fui, mas, que também já não sou: “Que sei eu do que sou, eu que não sei o que sou”. Estou de volta à Tabacaria.

A Fotografia no Computador

Doloridos e silenciosos são os momentos que nos descobrimos iguais a tantos outros iguais. E os são por reconhecermos que o nosso sofrimento, igual a tantos outros sofrimentos, é inevitável. Expulsos da ilusão do sermos diferentes, embarcamos em naus que nos arrastam ao inferno de inexpressividade... do comum. Sermos infernalmente iguais a outros demônios. Descobrirmos que as horas na frente do espelho, digladiando-se com subversivo fio de cabelo ou a amarrotada franja da blusa, passam desapercebidas nos olhares casuais de transeuntes apressados.
Mas, existe conforto para o sentir-se igual.
Olhando minha tela do computador, vi pela milésima vez a fotografia de Cristina e Bia. Um descanso de tela que, com resistência e pudor, deixava ser visto por outras pessoas: o sentia como espécie de declaração secreta de amor. Minha dor de ser igual a tantos outros iguais, veio quando de rabo de olho espionei timidamente o descanso de tela de outros computadores: geralmente eles estampavam declarações de amor como a minha. Eram outras iguais famílias, em outros iguais lugares.
Após ligar e desligar tantas vezes o computador, olhei mais detalhadamente para a minha declaração de amor. No primeiro plano os rostos de minhas amadas, que xingavam todos os iguais, através de seus sorrisos congelados na foto. No segundo plano, meio fora de foco, homens e mulheres e crianças com seus casacos pretos, suas horas na frente do espelho e suas franjas amarrotadas... a fotografia mostrava que há algo no mundo que diferencia nossos olhares, que nos tornam diferentes: algo que nos faz prestar atenção no menor suspiro, no cabelo arrumado, na franja amarrotada de algumas pessoas. Uma atenção que não é momentânea, mas que beira a neurose. Uma sensação que nos faz sentir pelo sentir do outro, que nos faz querer viver a vida alheia só para tornar a vida alheia nossa vida. A fotografia do descanso do meu computador mostra quem está no primeiro plano, no diferente, no singular... e o resto do mundo igual. Somos todos iguais, mas loucamente desesperados para sermos diferentes – não de alguém – mas, para alguém. Por isso, encontremos nossos “alguéns”. Remédio para a dor de sermos iguais.

Adeus!

Existem momentos que a palavra se curva envergonhada. Envergonhada por não poder se aproximar da dor da ausência, da dor do amor, por não poder traduzir a delicadeza de um príncipe, e nem a solidez de um ombro amigo... envergonhada por ser um pequeno grão de areia perdido no mar de tristeza. E por isso, por não poder te consolar com palavras que eu deixo meu silêncio. Um silêncio que espero aproximar-se de sua dor e sirva, mesmo que por um instante muito rápido, para dividir o peso de sua perda com você.

SILÊNCIO!!!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Ninar é Acordar



Desculpe-me seu Aurélio; mas, Ninar não é colocar para dormir. É justamente o contrário, é acordar. Acordar bem pelo Baixo, dedilhando a melodia de sermos todos e ninguém. Ninar também é o timbre das baquetas, em sons que nos acordam para a vida... para tudo que realmente importa. Ninar também é teclar, arranjar entre preto e branco todos os infinitos matizes do sofá que acalma meu corpo e libera minha alma. Ninar é acordar, com agudos trompetes, a lua cheia que aparece preguiçosa.
Seu Aurélio, Ninar é vencer o cotidiano, é vencer as mesmices pecuniárias e re-encantar o mundo. Ninar, seu Aurélio, é lembrar que a vida pode ser mágica. Seu Aurélio, Ninar é blues, é toque, é pele, é beijo, é olhar apaixonado... Ninar é re-inventar a vida, é Acordar... acordemos...

O Baleiro e a Alma

A morte é o fim em estado bruto, sem rodeios... simplesmente o fim. Apesar disso, ou talvez justamente por isso, nós morremos muitas vezes. A morte não é o contrário da vida, mas a morte é o fim da vida... de uma vida. A morte é o prenúncio de uma nova vida. Por isso, mesmo morto, posso escrever. Estou no meu estado mais bruto, estou num dos meus fins. Aprendi na escola que dois pontos podem criar uma reta, e quando sou apenas um ponto, um ponto em estado mais bruto, me permito que todas as retas passem por mim... sou um ponto bruto cravado de vidas retas... o limite é o impensável... o limite é a palavra... o limite não é o fim em estado bruto, pois de todo fim em estado bruto, brota a vida inexoravelmente como possibilidades... trago em mim muitas vidas... muitos tempos. Estou morto, e curioso, por saber que vida vai ser a escolhida... tantas vidas... tantas ruas... tantos rostos... tantas marcas... tantos medos... que vida escolherei ou que vida me acolherá? Depois da morte, mesmo a vida velha é uma vida nova... uma vida morta lembra possibilidades... confirma escolhas... e marca coragem e covardia. Queria explodir em trilhões de retas que passam no ponto de minha vida e da minha morte, e assistir meu rosto espantado de tantas vidas e de tantas mortes. Quanto mais vidas, mais são as mortes. A morte é o fim em estado bruto, e de que forma escolhi morrer hoje e de que forma vem minha alma bruta?! “Calma alma minha, calminha, não me deixe assim”.

Belém, 19.05.08.

A Festa e a Cidade



Cidade em Festa!!!

“A cidade em festa”. Eis uma daquelas expressões que repetimos com constância, mas que raramente damos conta do seu significado. Aqui em Belém do Grão-Pará, nesse segundo domingo de outubro de 2008, mais precisamente no dia 12, pude sentir o peso de uma cidade em festa. Ah!, aviso logo ao leitor, o verbo sentir deve marcar esse texto... é para sentir o verbo.
Uma festa começa com a vontade de festejar e também com um anfitrião, nesse caso uma anfitriã. Quem convida o mundo inteiro é Nossa Senhora de Nazaré, uma Santa “achada” por nossa imaginação na beira do igarapé do desespero. O convite se estende a todos: ricos e pobres, brancos, negros, índios ou chineses, homens, mulheres, GLBTT, a idosos e aos pequenos anjos... e embora tantos sejam convidados, somente 2 milhões aceitam o convite; é porque tem uns 170 mil na basílica de Aparecida e outros tantos que ainda não ouviram o convite. Pois bem, temos nossa anfitriã, que começa a prepara a festa no início da semana.
A cidade deixa bem clara a sua vontade de festejar e começa a se preparar. Ao longo da semana, mesmo quando cruzamos semáforos verdes, buzinamos impacientemente impelidos pelo relógio, quando os ônibus trafegam abarrotados de gado-humano... mesmo que continue a cidade com seu perverso e cotidiano fluxo, algo especial paira no ar. As ruas ganham pequenas marcas, as fachadas dos prédios se enfeitam com cartazes, pinturas e os porteiros fazem correr a famosa e aterradora “caixinha”, colegas de trabalho desejam feliz Círio, todo tipo de empresa acha de pendurar uma facha agradecendo ao sagrado marketing: “empresa tal saúda a Mãe de todos os paraenses...”. Não podemos esquecer que as academias ficam mais lotadas, onde adeptos devotos já espiam o pecado futuro, o saboroso pecado da “gula”. Os salões de beleza, templo de alguns, também se enchem de escovas definitivas, unhas pintadas... as lojas de departamento, principalmente aquelas que vendem a perder de vista, são invadidas por multidões ávidas por roupas para a festa e também para garantir a comida e a bebida do festejo.
* * *
Sexta-feira à noite. Eis que toca a trombeta anunciando o começo da festa: é o Auto do Círio. Milhares de pessoas se apertam entre as ruas estreitas do bairro da Cidade Velha para assistirem um teatro de rua. Nunca consegui entender bem o texto da festa, fico impressionado com o número de ambulantes (que serão os garçons da festa), com as famílias de costa para o palco e por encontrar pessoas que quase nunca vejo (Olá, tudo bem!!!). Também impressiona as performances e seus shows pirotécnicos, o que quase sempre me deixa com a sensação que pouco entendo de arte cênica. Outra atração especial são os turistas, principalmente os "gringos", que desfilam com suas poderosas objetivas: são os paparazzis buscando um melhor lugar. Mas, este é só o começo da festa.
No outro dia, pela manhã, a anfitriã resolve pegar um sol. Passear de barco. Uma atitude muito comum numa cidade que filha do rio, o problema é que esse simples passeio movimenta frotas inteiras e nem o desembarque da família real no Rio de Janeiro foi tão concorrido. São Pedro é um coadjuvante muito importante, com sua equipe do tempo, sabe muito bem quando pode chover. Cansada de marear, a anfitriã resolve passear de moto. Sempre é bom sentir o vento no rosto e vida no fino equilíbrio de duas rodas... é a fé na garupa. Motos importadas com seus roncos imperativos, motos cansadas de fazer entregas de pizza, motos de adolescente que precisam ir para a escola... motos grande, pequenas, ricas e pobres, trabalhadoras ou desempregadas de fins de semana... nossa anfitriã se multiplica e sobe na garupa de todas as motos, cada motoqueiro lhe conduz na garupa – mesmo aqueles que a moto quebra no meio do passeio. Uma nuvem de motos parte com o sagrado na Garupa: tudo é gasolina, barulho, equilíbrio e fé.
No mesmo dia, após um merecido descanso, e ao cair da noite, a anfitriã resolve reconhecer o salão, verificar se tudo está em ordem. Som, convidados, segurança, garçons... Ela passa ensaiando seu desfile, e os convidados também ensaiam suas participações na festa. A corda tensa já carrega homens e mulheres suados e sentindo o castigo majestoso do corpo que libera a alma, a dor que afaga o sofrimento e dar esperança para vida... noite, fogos, aperto, velas, multidão... multidão... multidão, nossa anfitriã aprova o que sente, o que ouve e o que assiste... na próxima manhã é hora do baile.
Manhã de domingo, duas milhões de pessoas partem de suas casas, hotéis, ônibus, barcos... rumam e remam num mesmo sentido: para a festa. A “Santinha”, nossa anfitriã, passeia majestosa entre os mortais. Todos os olhares se encontram nela, tantas atenções ao ritmo de seu andar, seu parar e seu continuar. E tenho a sorte de vê-la de perto, animado pela multidão, a convido para dançar: danço com ela, e a cada passo meus medos esmorecem e sou invadido pela vontade de ser bom, menos mesquinho, de ajudar ao irmão... uma dança da salvação, da minha salvação: amai ao próximo como ama a ti mesmo...
Enquanto nossa anfitriã passeia uns desmaiam, outros oram, outros imploram, outros vendem água... seja como for, só a imagem de Nossa Senhora de Nazaré basta. Cada olhar que a toca, cada mão levantada em sua direção para enxergá-la, cada gota de suor que pinga na corda, cada nota musical tencionada em seu nome, cada lamento, cada grão de pólvora erguido ao céu... cada parte de nós que se curva no prumo da berlinda parece abrir a porta do mundo. Por um instante, mesmo que mínimo seja esse instante, os convidados parecem abrir a porta do mundo... do Todo; e nesse tempo imensurável vencemos a dor, a miséria da alma, a fome, o desespero... nesse sagrado tempo vencemos a vida e a morte e apenas sentimos; não é preciso mais pedir graças, pois todas as graças estão aos nossos pés; não é preciso cantar, pois a música é nossa existência, não é preciso empurrar, pois dois milhões de corpos ocupam o mesmo lugar no espaço, não é preciso esperança, pois alcançamos o imponderável... somos todos, mesmo que num imensurável instante, convidados da mesma festa... Mas, ainda não aprendemos... depois de tantos Círios continuamos perdidos...
Eesse mágico momento espedaça-se no grito de “pega ladrão”, na faixa do candidato a prefeito, no policial que passa com sua escopeta, no romeiro que xinga o vendedor de água, no bueiro sem tampa que é armadilha para a idoso que caminha com dificuldade, no prédio bacana com sua cerca elétrica, na intolerância contra o diferente, nos carros que não arredam para a ambulância passar... nossa anfitriã chora de tristeza, pois não percebemos que a festa está em nós, na comunhão.
Ano que vem ela vem novamente, sempre no segundo domingo de outubro. Vem tentar novamente nos ensinar que a festa é a cidade, e que todo dia pode ser festa na cidade...
já ia esquecendo: São Pedro a festa acabou, lave nossa cidade... Fim de tarde a “Santinha” se recolhe... e chove... Amanhã a cidade acordará preguiçosa tentando entender o que aconteceu.