Cidade em Festa!!!
“A cidade em festa”. Eis uma daquelas expressões que repetimos com constância, mas que raramente damos conta do seu significado. Aqui em Belém do Grão-Pará, nesse segundo domingo de outubro de 2008, mais precisamente no dia 12, pude sentir o peso de uma cidade em festa. Ah!, aviso logo ao leitor, o verbo sentir deve marcar esse texto... é para sentir o verbo.
Uma festa começa com a vontade de festejar e também com um anfitrião, nesse caso uma anfitriã. Quem convida o mundo inteiro é Nossa Senhora de Nazaré, uma Santa “achada” por nossa imaginação na beira do igarapé do desespero. O convite se estende a todos: ricos e pobres, brancos, negros, índios ou chineses, homens, mulheres, GLBTT, a idosos e aos pequenos anjos... e embora tantos sejam convidados, somente 2 milhões aceitam o convite; é porque tem uns 170 mil na basílica de Aparecida e outros tantos que ainda não ouviram o convite. Pois bem, temos nossa anfitriã, que começa a prepara a festa no início da semana.
A cidade deixa bem clara a sua vontade de festejar e começa a se preparar. Ao longo da semana, mesmo quando cruzamos semáforos verdes, buzinamos impacientemente impelidos pelo relógio, quando os ônibus trafegam abarrotados de gado-humano... mesmo que continue a cidade com seu perverso e cotidiano fluxo, algo especial paira no ar. As ruas ganham pequenas marcas, as fachadas dos prédios se enfeitam com cartazes, pinturas e os porteiros fazem correr a famosa e aterradora “caixinha”, colegas de trabalho desejam feliz Círio, todo tipo de empresa acha de pendurar uma facha agradecendo ao sagrado marketing: “empresa tal saúda a Mãe de todos os paraenses...”. Não podemos esquecer que as academias ficam mais lotadas, onde adeptos devotos já espiam o pecado futuro, o saboroso pecado da “gula”. Os salões de beleza, templo de alguns, também se enchem de escovas definitivas, unhas pintadas... as lojas de departamento, principalmente aquelas que vendem a perder de vista, são invadidas por multidões ávidas por roupas para a festa e também para garantir a comida e a bebida do festejo.
* * *
“A cidade em festa”. Eis uma daquelas expressões que repetimos com constância, mas que raramente damos conta do seu significado. Aqui em Belém do Grão-Pará, nesse segundo domingo de outubro de 2008, mais precisamente no dia 12, pude sentir o peso de uma cidade em festa. Ah!, aviso logo ao leitor, o verbo sentir deve marcar esse texto... é para sentir o verbo.
Uma festa começa com a vontade de festejar e também com um anfitrião, nesse caso uma anfitriã. Quem convida o mundo inteiro é Nossa Senhora de Nazaré, uma Santa “achada” por nossa imaginação na beira do igarapé do desespero. O convite se estende a todos: ricos e pobres, brancos, negros, índios ou chineses, homens, mulheres, GLBTT, a idosos e aos pequenos anjos... e embora tantos sejam convidados, somente 2 milhões aceitam o convite; é porque tem uns 170 mil na basílica de Aparecida e outros tantos que ainda não ouviram o convite. Pois bem, temos nossa anfitriã, que começa a prepara a festa no início da semana.
A cidade deixa bem clara a sua vontade de festejar e começa a se preparar. Ao longo da semana, mesmo quando cruzamos semáforos verdes, buzinamos impacientemente impelidos pelo relógio, quando os ônibus trafegam abarrotados de gado-humano... mesmo que continue a cidade com seu perverso e cotidiano fluxo, algo especial paira no ar. As ruas ganham pequenas marcas, as fachadas dos prédios se enfeitam com cartazes, pinturas e os porteiros fazem correr a famosa e aterradora “caixinha”, colegas de trabalho desejam feliz Círio, todo tipo de empresa acha de pendurar uma facha agradecendo ao sagrado marketing: “empresa tal saúda a Mãe de todos os paraenses...”. Não podemos esquecer que as academias ficam mais lotadas, onde adeptos devotos já espiam o pecado futuro, o saboroso pecado da “gula”. Os salões de beleza, templo de alguns, também se enchem de escovas definitivas, unhas pintadas... as lojas de departamento, principalmente aquelas que vendem a perder de vista, são invadidas por multidões ávidas por roupas para a festa e também para garantir a comida e a bebida do festejo.
* * *
Sexta-feira à noite. Eis que toca a trombeta anunciando o começo da festa: é o Auto do Círio. Milhares de pessoas se apertam entre as ruas estreitas do bairro da Cidade Velha para assistirem um teatro de rua. Nunca consegui entender bem o texto da festa, fico impressionado com o número de ambulantes (que serão os garçons da festa), com as famílias de costa para o palco e por encontrar pessoas que quase nunca vejo (Olá, tudo bem!!!). Também impressiona as performances e seus shows pirotécnicos, o que quase sempre me deixa com a sensação que pouco entendo de arte cênica. Outra atração especial são os turistas, principalmente os "gringos", que desfilam com suas poderosas objetivas: são os paparazzis buscando um melhor lugar. Mas, este é só o começo da festa.
No outro dia, pela manhã, a anfitriã resolve pegar um sol. Passear de barco. Uma atitude muito comum numa cidade que filha do rio, o problema é que esse simples passeio movimenta frotas inteiras e nem o desembarque da família real no Rio de Janeiro foi tão concorrido. São Pedro é um coadjuvante muito importante, com sua equipe do tempo, sabe muito bem quando pode chover. Cansada de marear, a anfitriã resolve passear de moto. Sempre é bom sentir o vento no rosto e vida no fino equilíbrio de duas rodas... é a fé na garupa. Motos importadas com seus roncos imperativos, motos cansadas de fazer entregas de pizza, motos de adolescente que precisam ir para a escola... motos grande, pequenas, ricas e pobres, trabalhadoras ou desempregadas de fins de semana... nossa anfitriã se multiplica e sobe na garupa de todas as motos, cada motoqueiro lhe conduz na garupa – mesmo aqueles que a moto quebra no meio do passeio. Uma nuvem de motos parte com o sagrado na Garupa: tudo é gasolina, barulho, equilíbrio e fé.
No mesmo dia, após um merecido descanso, e ao cair da noite, a anfitriã resolve reconhecer o salão, verificar se tudo está em ordem. Som, convidados, segurança, garçons... Ela passa ensaiando seu desfile, e os convidados também ensaiam suas participações na festa. A corda tensa já carrega homens e mulheres suados e sentindo o castigo majestoso do corpo que libera a alma, a dor que afaga o sofrimento e dar esperança para vida... noite, fogos, aperto, velas, multidão... multidão... multidão, nossa anfitriã aprova o que sente, o que ouve e o que assiste... na próxima manhã é hora do baile.
Manhã de domingo, duas milhões de pessoas partem de suas casas, hotéis, ônibus, barcos... rumam e remam num mesmo sentido: para a festa. A “Santinha”, nossa anfitriã, passeia majestosa entre os mortais. Todos os olhares se encontram nela, tantas atenções ao ritmo de seu andar, seu parar e seu continuar. E tenho a sorte de vê-la de perto, animado pela multidão, a convido para dançar: danço com ela, e a cada passo meus medos esmorecem e sou invadido pela vontade de ser bom, menos mesquinho, de ajudar ao irmão... uma dança da salvação, da minha salvação: amai ao próximo como ama a ti mesmo...
Enquanto nossa anfitriã passeia uns desmaiam, outros oram, outros imploram, outros vendem água... seja como for, só a imagem de Nossa Senhora de Nazaré basta. Cada olhar que a toca, cada mão levantada em sua direção para enxergá-la, cada gota de suor que pinga na corda, cada nota musical tencionada em seu nome, cada lamento, cada grão de pólvora erguido ao céu... cada parte de nós que se curva no prumo da berlinda parece abrir a porta do mundo. Por um instante, mesmo que mínimo seja esse instante, os convidados parecem abrir a porta do mundo... do Todo; e nesse tempo imensurável vencemos a dor, a miséria da alma, a fome, o desespero... nesse sagrado tempo vencemos a vida e a morte e apenas sentimos; não é preciso mais pedir graças, pois todas as graças estão aos nossos pés; não é preciso cantar, pois a música é nossa existência, não é preciso empurrar, pois dois milhões de corpos ocupam o mesmo lugar no espaço, não é preciso esperança, pois alcançamos o imponderável... somos todos, mesmo que num imensurável instante, convidados da mesma festa... Mas, ainda não aprendemos... depois de tantos Círios continuamos perdidos...
Eesse mágico momento espedaça-se no grito de “pega ladrão”, na faixa do candidato a prefeito, no policial que passa com sua escopeta, no romeiro que xinga o vendedor de água, no bueiro sem tampa que é armadilha para a idoso que caminha com dificuldade, no prédio bacana com sua cerca elétrica, na intolerância contra o diferente, nos carros que não arredam para a ambulância passar... nossa anfitriã chora de tristeza, pois não percebemos que a festa está em nós, na comunhão.
Ano que vem ela vem novamente, sempre no segundo domingo de outubro. Vem tentar novamente nos ensinar que a festa é a cidade, e que todo dia pode ser festa na cidade...
já ia esquecendo: São Pedro a festa acabou, lave nossa cidade... Fim de tarde a “Santinha” se recolhe... e chove... Amanhã a cidade acordará preguiçosa tentando entender o que aconteceu.
No outro dia, pela manhã, a anfitriã resolve pegar um sol. Passear de barco. Uma atitude muito comum numa cidade que filha do rio, o problema é que esse simples passeio movimenta frotas inteiras e nem o desembarque da família real no Rio de Janeiro foi tão concorrido. São Pedro é um coadjuvante muito importante, com sua equipe do tempo, sabe muito bem quando pode chover. Cansada de marear, a anfitriã resolve passear de moto. Sempre é bom sentir o vento no rosto e vida no fino equilíbrio de duas rodas... é a fé na garupa. Motos importadas com seus roncos imperativos, motos cansadas de fazer entregas de pizza, motos de adolescente que precisam ir para a escola... motos grande, pequenas, ricas e pobres, trabalhadoras ou desempregadas de fins de semana... nossa anfitriã se multiplica e sobe na garupa de todas as motos, cada motoqueiro lhe conduz na garupa – mesmo aqueles que a moto quebra no meio do passeio. Uma nuvem de motos parte com o sagrado na Garupa: tudo é gasolina, barulho, equilíbrio e fé.
No mesmo dia, após um merecido descanso, e ao cair da noite, a anfitriã resolve reconhecer o salão, verificar se tudo está em ordem. Som, convidados, segurança, garçons... Ela passa ensaiando seu desfile, e os convidados também ensaiam suas participações na festa. A corda tensa já carrega homens e mulheres suados e sentindo o castigo majestoso do corpo que libera a alma, a dor que afaga o sofrimento e dar esperança para vida... noite, fogos, aperto, velas, multidão... multidão... multidão, nossa anfitriã aprova o que sente, o que ouve e o que assiste... na próxima manhã é hora do baile.
Manhã de domingo, duas milhões de pessoas partem de suas casas, hotéis, ônibus, barcos... rumam e remam num mesmo sentido: para a festa. A “Santinha”, nossa anfitriã, passeia majestosa entre os mortais. Todos os olhares se encontram nela, tantas atenções ao ritmo de seu andar, seu parar e seu continuar. E tenho a sorte de vê-la de perto, animado pela multidão, a convido para dançar: danço com ela, e a cada passo meus medos esmorecem e sou invadido pela vontade de ser bom, menos mesquinho, de ajudar ao irmão... uma dança da salvação, da minha salvação: amai ao próximo como ama a ti mesmo...
Enquanto nossa anfitriã passeia uns desmaiam, outros oram, outros imploram, outros vendem água... seja como for, só a imagem de Nossa Senhora de Nazaré basta. Cada olhar que a toca, cada mão levantada em sua direção para enxergá-la, cada gota de suor que pinga na corda, cada nota musical tencionada em seu nome, cada lamento, cada grão de pólvora erguido ao céu... cada parte de nós que se curva no prumo da berlinda parece abrir a porta do mundo. Por um instante, mesmo que mínimo seja esse instante, os convidados parecem abrir a porta do mundo... do Todo; e nesse tempo imensurável vencemos a dor, a miséria da alma, a fome, o desespero... nesse sagrado tempo vencemos a vida e a morte e apenas sentimos; não é preciso mais pedir graças, pois todas as graças estão aos nossos pés; não é preciso cantar, pois a música é nossa existência, não é preciso empurrar, pois dois milhões de corpos ocupam o mesmo lugar no espaço, não é preciso esperança, pois alcançamos o imponderável... somos todos, mesmo que num imensurável instante, convidados da mesma festa... Mas, ainda não aprendemos... depois de tantos Círios continuamos perdidos...
Eesse mágico momento espedaça-se no grito de “pega ladrão”, na faixa do candidato a prefeito, no policial que passa com sua escopeta, no romeiro que xinga o vendedor de água, no bueiro sem tampa que é armadilha para a idoso que caminha com dificuldade, no prédio bacana com sua cerca elétrica, na intolerância contra o diferente, nos carros que não arredam para a ambulância passar... nossa anfitriã chora de tristeza, pois não percebemos que a festa está em nós, na comunhão.
Ano que vem ela vem novamente, sempre no segundo domingo de outubro. Vem tentar novamente nos ensinar que a festa é a cidade, e que todo dia pode ser festa na cidade...
já ia esquecendo: São Pedro a festa acabou, lave nossa cidade... Fim de tarde a “Santinha” se recolhe... e chove... Amanhã a cidade acordará preguiçosa tentando entender o que aconteceu.
2 comentários:
MUITO BOM. SAUDADES.
uuuuéééiiiiiiii tava bom, não tava.o grupal.tribal.uuuuaaaallllllll. chegaremos lá! quêm sabe 2009 poooaaahhh!!?diana medina e franck ribard.
Postar um comentário