quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Fotografia no Computador

Doloridos e silenciosos são os momentos que nos descobrimos iguais a tantos outros iguais. E os são por reconhecermos que o nosso sofrimento, igual a tantos outros sofrimentos, é inevitável. Expulsos da ilusão do sermos diferentes, embarcamos em naus que nos arrastam ao inferno de inexpressividade... do comum. Sermos infernalmente iguais a outros demônios. Descobrirmos que as horas na frente do espelho, digladiando-se com subversivo fio de cabelo ou a amarrotada franja da blusa, passam desapercebidas nos olhares casuais de transeuntes apressados.
Mas, existe conforto para o sentir-se igual.
Olhando minha tela do computador, vi pela milésima vez a fotografia de Cristina e Bia. Um descanso de tela que, com resistência e pudor, deixava ser visto por outras pessoas: o sentia como espécie de declaração secreta de amor. Minha dor de ser igual a tantos outros iguais, veio quando de rabo de olho espionei timidamente o descanso de tela de outros computadores: geralmente eles estampavam declarações de amor como a minha. Eram outras iguais famílias, em outros iguais lugares.
Após ligar e desligar tantas vezes o computador, olhei mais detalhadamente para a minha declaração de amor. No primeiro plano os rostos de minhas amadas, que xingavam todos os iguais, através de seus sorrisos congelados na foto. No segundo plano, meio fora de foco, homens e mulheres e crianças com seus casacos pretos, suas horas na frente do espelho e suas franjas amarrotadas... a fotografia mostrava que há algo no mundo que diferencia nossos olhares, que nos tornam diferentes: algo que nos faz prestar atenção no menor suspiro, no cabelo arrumado, na franja amarrotada de algumas pessoas. Uma atenção que não é momentânea, mas que beira a neurose. Uma sensação que nos faz sentir pelo sentir do outro, que nos faz querer viver a vida alheia só para tornar a vida alheia nossa vida. A fotografia do descanso do meu computador mostra quem está no primeiro plano, no diferente, no singular... e o resto do mundo igual. Somos todos iguais, mas loucamente desesperados para sermos diferentes – não de alguém – mas, para alguém. Por isso, encontremos nossos “alguéns”. Remédio para a dor de sermos iguais.

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