sábado, 11 de setembro de 2010

Ofereço-te-me

O que pode um pai como eu, marinheiro de primeira viagem, ofertar para sua tão desejada e amada filha? A espera é um continente distante e enquanto navego rumo a ti, chegas mais perto do meu coração. Atravessar o oceano do tempo intimida até mesmo as mais robustas naus, atordoa os mais experientes navegadores e ameaça as mais belas esperanças. Mas, só me resta navegar. E enquanto navego preparo teu enxoval, pois sempre é mais um pretexto para pensar em ti, de andar por ti e de falar de ti. As vendedoras aproveitam a ocasião, e fingem que compartilham da minha doce espera. Entrei e saí de loja, fui montando meu botim: banheira, pagão, puxadores de armário, vestido laranja com brancas franjas, sapatinho lilás... mas, nada parecia ser digno da princesa de terras distantes, que trazia sobre suas costas uma nova vida e minha nova velha vida. Pensei no que poderia ser a altura de sua chegada, uma prenda que tivesse me custado mais que um cartão de crédito, uma oferta que tivesse me custado lágrimas, sangue e medo. Pensei, pensei e pensei e acho que só posso navegar rumo a tua chegada carregando nas mãos o perdido, te oferecendo que não existe mais... e se o tempo nos separa até teu chegar, ele nos une na vontade de nos encontrarmos: Nina, minha filha, te ofereço o LEMBRAR, em gotas de imaginação e na certeza de me ouvires. Enquanto te espero lembro do passado e do nosso futuro, enquanto te espero reinvento mundos e assim nos encontramos num espaço que já é só nosso. Enquanto lembro te amo mais, e ofereço minha velha nova vida. Oferecer-te o LEMBRAR é oferecer-te o tempo, é oferecer-te-me. E de tudo que posso e quero lembrar, de tudo que posso reinventar, ancoro no Mar seguro de minha infância, no porto do que me tornou o que sou: Nina te apresento o bairro onde cresci, no litoral da cidade de Fortaleza, e que ainda atende pelo nome de Praia de Iracema. Um bairro que também partiu para terra do não-existo-mais, mas que me ensinou a amar o LEMBRAR. Pega teu presente, ele é minha vida em palavras... e silêncios. A partir daqui, desse emaranhado de palavras e silêncios espero começarmos nossa cumplicidade, começarmos juntos nossa aventura de pai e de filha... começarmos a comungar nossas lembranças.

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