sábado, 11 de setembro de 2010

Nunca mais fui um bom jogador de Futebol

Nina, minha chegada na PI foi marcada por um imenso sentimento de tristeza. Antes de mudarmos em definitivo para nosso apartamento, ficamos abrigados na casa do tio Mundim (Mundim, Mudinho, Raimundinho até o original Raimundo), irmão de meu avô. Foram dias maravilhosos: primeiro a novidade, dividirmos uma casa com outras pessoas era por si só um evento; depois a tia Helena, esposa do tio Mundim, cozinhava divinamente e tudo acabava delicioso; outro ponto a favor de nossa temporada como hóspede era o quintal da casa, com criação de galinha e de peba (espécie de tatu) que acabavam invariavelmente cozidos pelas mãos hábeis de tia Helena. No entanto, o que mais me empolgava era o futebol. Nunca entendi o que houve, era quase um milagre, mas não sei por que desígnio divino eu passei a jogar bem. Nas famosas brincadeiras de travinha eu fazia muitos gols, e logo meus colegas de Cidade 2000 – bairro onde o tio Mundim morava – passaram a me dar um destaque que nunca tive. Iam na casa do meu tio me chamar para o racha, sempre me escolhiam primeiro para compor o time... e olha eu nem era o dono da bola. Sentiam-me como um craque, muitas vezes fazia charme e impunha alguns pequenos desejos: só jogava no time sem camisa, por exemplo. Até que chegou o dia do torneio aberto de Futebol de Salão da Cidade 2000. O filho da Zenaide, que era amiga de longas datas de minha mãe e vizinha do Tio Mundim, me fez o convite para jogar no time dele. Nem acreditava, não fiz o menor esforço e fui convocado para um time que tinha até uniforme – era a camisa do Fluminense. Os jogos aconteciam na quadra descoberta do grupo escolar, e em dias de jogos rezávamos para não chover – que é uma heresia no Ceará. A cada jogo os meninos iam me buscar em casa, meu avô olhava com desconfiança para meu recente adquirido talento futebolístico, mas deixava ir. Ganhamos todas as partidas, eu fiz alguns gols, e a molecada dos outros times me chamavam pelo nome... repito Nina, não sei o que houve, e mesmo descontando o exagero do meu lembrar, nosso time ia avançando, dia após dia. Na tabela dos artilheiros estava empatado com outro garoto. Fomos para final do campeonato, e no outro lado o time do meu rival de artilharia – previa uma batalha. O fatídico confronto seria no último sábado do mês, e na semana que antecedia o jogo meu coração na cabia no peito... Ficava imaginando o que faria, as jogada possíveis de meu rival e minha comemoração com a camisa do Flu – seriamos campeões? Estava ansioso e feliz, até descobrir que me mudaria para a PI nas vésperas da final. Não acreditei, na condição de estrela do time (que eu mesmo havia auto-empossado) pedi aos meus companheiros que fossem apelar para meu avô, pedir que ficasse na 2000 até a peleja final. Todos os apelos foram em vão, e perdi a partida de minha vida. Cheguei na PI com o coração sofrido, pensando em pegar um ônibus ou apelar para que meu avô me levasse no seu valoroso Jipe Willians até a Cidade 2000 - em vão. Daí em diante, voltei a ser um mortal e meu futebol sumiu em definitivo repousando nas raias da mediocridade. Aliás, nunca soube o resultado do confronto, só fui voltar a pisar na 2000 depois de adulto, e meu tio já não morava mais lá – tinha mudado para o céu.

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