quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bodega

Nina, bodega é uma palavra que nem todo mundo conhece. Significa um lugar que vende de tudo: farinha, feijão, óleo, arroz, linha, agulha, elástico, bila (bola de gude), arraia (pipa), pão, prego enrolado no papel grosso – daí a antiga expressão mais grosso do que papel de enrolar prego – leite em saco, cachaça, conhaque, cerveja, ficha de telefone, kichute ainda no plástico, sandália havaiana, tijolinho (doce), martinho da vila (doce), cocada, chocolate batom... além dessa variedade de produtos a bodega tem uma decoração interna típica: paredes de azulejos com desenhos florais, mesa de bilhar, um armário de madeira com porta de vidro onde parte dos produtos são guardados, lata de manteiga ao lado do armário, prateleiras com garrafas de bebidas empoeiradas (um toque de requinte), do teto pendente mortadelas que parecem ter validade infinita, mas, a parte principal de uma bodega é o balcão de pedra, que tem como acessório um grupo de cachaceiros discutindo os problemas do Brasil, brigando pelo tamanho da dose de cachaça e pedindo fiado. Tudo bem!, é uma definição que talvez não se aplique as bodegas de hoje – se é que hoje ainda tem bodega – mas, é a definição da bodega que marcou minha vida, a bodega do Alvino. Ficava na esquina da rua Ararius com a rua Dragão do Mar, e ajudou a dar um sentido definitivo para definição de bodega. Seu proprietário era O bodegueiro. Baixinho, barrigudo, trabalhava sempre sem camisa, com uma bermuda apertada por um cinto com a inicial de seu nome e calçando chinelo de dedo. O cabelo impecável, apesar de anunciar o alongamento da testa. Sempre suando, nosso bodegueiro era homem de poucas palavras, simplesmente esperava o pedido do freguês e jogava o dinheiro ou pegava o troco numa gaveta de madeira suja e torta. A noite, para completar a decoração do estabelecimento, guardava seu Corcel I marrom junto a mesa de sinuca e subia para o segundo andar, onde morava com sua esposa e seus dois filhos. Não consigo imaginá-lo fora desse ambiente. A família era crente, a filha dele andava pouco pelo bairro, e falava menos ainda. Sempre achei a família do Alvino meio doente, carregavam o vírus da tristeza... ou seria apenas timidez. Achávamos que era o pobre mais rico do mundo; ele vivia quase como um monge, sem luxo nenhum. Entretanto ganhava muito dinheiro, todo dia uma procissão de compradores passava pelo balcão, principalmente próximo as horas do almoço ou do jantar. Tentaram até roubar sua casa, o que foi impedido pelas grades da janela. Como o Alvino quase não falava achava que ele não reconhecia ninguém. Um dia um milagre aconteceu; meu irmão, já adolescente foi comprar pão na bodega, e o Alvino inusitadamente falou: “lembro quando tua era criança, teu avô te sentava nesse balcão e comprava Grapette com broa”. Meu irmão ficou sem palavras, não é que o Alvino depois de anos havia dirigido a palavra para um de nós... e o melhor, com detalhes. Fiquei imaginando que ele não sabia o nome dos clientes, mas o que comprava, e assim meu irmão era o broa com Grapette e eu o meio pão sovado, a Pádua (lavadeira) era a barra de sabão Pavão... Quando morreu fiquei com o coração apertado, não por ele, mas pela esposa e pelos filhos – achei que eles ficariam mais tristes do que já eram. A esposa tentou tocar o negócio, mas deve ter cansado dos bêbados... até que mudaram do bairro, e levaram na mudança mais um pedaço da minha infantil PI... e eu nem percebi o quanto de mim fugiu na mala do Corcel I marrom. Nina, te apresento a bodega, bodega essa aqui é a Nina...

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